NÉVOA EM NEVERLAND
à memória de Michael Jackson
Enfim a criança cresceu.
Deixou o castelo de seus sonhos
e preferiu a perfeição celeste
que buscou a todo custo,
em todo tempo, a vida toda.
Tolhido do direito de dizer
as próprias palavras,
preterido pela maturidade precoce
e ao mesmo tempo aprisionado
numa infância nunca finda,
o herói tentou curar o mundo
expondo seu ponto mais fraco,
tornando-se um excêntrico
no cenário musical,
um produto infeliz do show bizz.
Seria leviano um astro
andar na lua?
Descanse em paz, pobre menino.
Cante livremente os louvores eternos
e enterneça os ouvidos de Deus,
ganhando agora o lugar melhor
que tanto almejou;
pois aqui, na Terra do Nunca,
o duro destino que de ti nos aparta
ainda espera por nós.
(Paulo Cruz)
Quinta-feira, Julho 09, 2009
Quarta-feira, Julho 08, 2009
NEM TANTO AO MAR NEM TANTO À TERRA
Não ter certeza é a destreza que duvida:
fica à mercê, porque quem crê impõe suas regras,
prevalecendo seu juízo a todo instante,
impondo a quem bem saberia argumentar,
mas não o faz, pois pensa de modo vulgar
e fica preso em aporias, não convence.
Manter certeza em todo tempo é um tropeço:
pois quem não erra em tempo algum é muito ousado;
e nem assim, é claro, nada é tão correto;
pelo contrário, cria um vasto inventário
de absolutos, de feições tão resolutas,
que não são mais que um festival de intolerâncias.
Estar atento é a mais correta alternativa:
na tentativa de viver sempre a contento,
se dando ao luxo de escolher o razoável,
sem deflagrar um golpe em tudo que é estranho,
é bem melhor, pois nos ajuda a sermos justos
e a acolher na dura alma um bem durável.
(Paulo Cruz)
Não ter certeza é a destreza que duvida:
fica à mercê, porque quem crê impõe suas regras,
prevalecendo seu juízo a todo instante,
impondo a quem bem saberia argumentar,
mas não o faz, pois pensa de modo vulgar
e fica preso em aporias, não convence.
Manter certeza em todo tempo é um tropeço:
pois quem não erra em tempo algum é muito ousado;
e nem assim, é claro, nada é tão correto;
pelo contrário, cria um vasto inventário
de absolutos, de feições tão resolutas,
que não são mais que um festival de intolerâncias.
Estar atento é a mais correta alternativa:
na tentativa de viver sempre a contento,
se dando ao luxo de escolher o razoável,
sem deflagrar um golpe em tudo que é estranho,
é bem melhor, pois nos ajuda a sermos justos
e a acolher na dura alma um bem durável.
(Paulo Cruz)
Quarta-feira, Abril 01, 2009
A REPÚBLICA DO POETA
Que duro golpe me aplicou Platão
e sua República de pudicos.
desvendou o segredo dos aedos
chamou de mentira a arte dramática
e questionou, à maneira socrática,
os hexâmetros perfeitos do Mestre,
acusando-os de mera imitação.
Não permitiu aos deuses sentimentos
dúbios, propriedade dos humanos;
a detenção serena da verdade
é o que cabia aos impassíveis numes,
e declamar só seria possível
aquilo que passasse pelo crivo
"democrático" de seus escolhidos.
Ora essa estadista, não me assuste!
Só me recuperei lendo Aristóteles,
que diz que a poesia é mais que história
e a meta principal é o possível.
Respiro aliviado lendo a Íliada,
de posse da Odisséia louvo Ulisses
e mesmo eu agora escrevo versos,
pois salvo do infortúnio pelas musas,
não posso mais calar meu canto alegre.
E ainda mais, estou recuperado,
não sofro mais da crise que eu sofria
e sigo em paz com a Filosofia.
(Paulo Cruz)
Que duro golpe me aplicou Platão
e sua República de pudicos.
desvendou o segredo dos aedos
chamou de mentira a arte dramática
e questionou, à maneira socrática,
os hexâmetros perfeitos do Mestre,
acusando-os de mera imitação.
Não permitiu aos deuses sentimentos
dúbios, propriedade dos humanos;
a detenção serena da verdade
é o que cabia aos impassíveis numes,
e declamar só seria possível
aquilo que passasse pelo crivo
"democrático" de seus escolhidos.
Ora essa estadista, não me assuste!
Só me recuperei lendo Aristóteles,
que diz que a poesia é mais que história
e a meta principal é o possível.
Respiro aliviado lendo a Íliada,
de posse da Odisséia louvo Ulisses
e mesmo eu agora escrevo versos,
pois salvo do infortúnio pelas musas,
não posso mais calar meu canto alegre.
E ainda mais, estou recuperado,
não sofro mais da crise que eu sofria
e sigo em paz com a Filosofia.
(Paulo Cruz)
Segunda-feira, Janeiro 05, 2009
Feliz 2009!
ANO NOVO, DE NOVO
De malas prontas o tempo promete
não voltar atrás,
atrai tudo o que foi premeditado
e aspira um cenário
novo para mover um mundo igual.
É ato contínuo,
não há tempo para eterno retorno,
nem para pensar
o que seria do que já não é.
A festa acabou,
José resolveu seguir seu caminho,
cansou de esperar
que a tal utopia se consumasse
e tornou-se homem,
e derramou seus derradeiros dias
em muitas certezas:
teve certeza da vida e da morte,
do tempo vindouro,
da perene alegria dos eleitos,
da desilusão
dos que desistiram de desvendar
qual senda seguir
para que os sonhos não desvanecessem
e dormiu em paz.
José foi feliz, você o será?
(Paulo Cruz)
De malas prontas o tempo promete
não voltar atrás,
atrai tudo o que foi premeditado
e aspira um cenário
novo para mover um mundo igual.
É ato contínuo,
não há tempo para eterno retorno,
nem para pensar
o que seria do que já não é.
A festa acabou,
José resolveu seguir seu caminho,
cansou de esperar
que a tal utopia se consumasse
e tornou-se homem,
e derramou seus derradeiros dias
em muitas certezas:
teve certeza da vida e da morte,
do tempo vindouro,
da perene alegria dos eleitos,
da desilusão
dos que desistiram de desvendar
qual senda seguir
para que os sonhos não desvanecessem
e dormiu em paz.
José foi feliz, você o será?
(Paulo Cruz)
Quarta-feira, Novembro 12, 2008
UM NEO-ATEU VISITA O SERTÃO
Seu cangaceiro
porque tanto desatino?
Não há Deus, não há destino,
nem há céu onde morar.
A vida é isso,
muita dor, muito conflito,
mas condenação, repito,
é viver a esperar
alguém que venha
lá do Alto respondendo,
meus problemas resolvendo,
sem que eu saiba onde está;
onde se esconde
esse ser tão desligado,
que não vê o resultado
do que resolveu criar.
Por isso eu digo,
Somos sós, é só matéria,
viemos das bactérias,
a ciência vai provar;
com Charles Darwin,
pai da nobre teoria
(era tudo que eu queria!):
de que a vida vem do mar.
E evoluindo
toda terra, toda espécie,
tudo nasce, tudo cresce,
não sei onde vai parar!
Diria Sartre,
eu o li e te garanto,
é o homem, sem encanto,
condenado a vagar.
E sem comando
ou escolhe a aventura,
sem abonação futura,
ou melhor é se matar.
À minha vista,
li num livro marxista
que a vida é uma conquista
do trabalho a prosperar.
Onde o povo
tem dinheiro sem limite,
todo mundo (acredite!);
pobres? Em nenhum lugar!
Ou pelo menos
tem comida, moradia,
tudo isso é garantia
do governo singular.
Em tais leituras
(mais moderna impossível),
que engenhosidade incrível,
nisto eu quero acreditar.
Não nesse livro,
que escrito há tanto tempo,
por um povo desatento
que não sabe seu lugar.
Espalha o ódio
não a paz, como professa,
seus desvios não confessa,
só sabe dissimular.
E concluindo:
seu estômago roncando
e este sol te estrangulando
não há como resolver.
Me dê teus dados
que voltando ao mundo ativo,
mando-lhe um donativo,
é só o que posso fazer.
E respondendo,
o sofrido cangaceiro,
com pensamento ligeiro
mesmo a fome a o atacar:
Seu dotozinho,
me desculpe, sou sincero,
sua solidão não quero
e lhe digo, quer ouvir?
Aqui no seco,
onde não há segurança,
só se vive de esperança,
tenho um Deus a quem pedir.
Se eu me enfronhasse
Nessa tua maluquice
“Não há Deus!” — Foi o que disse?
Como iria resistir?
De um escritório
é tão fácil palavrório,
mesmo esse tão simplório
pra grã-fino discutir.
Mas no cangaço
esse assunto dá cansaço
e aqui não há espaço,
eu não posso desistir.
(Paulo Cruz)
Seu cangaceiro
porque tanto desatino?
Não há Deus, não há destino,
nem há céu onde morar.
A vida é isso,
muita dor, muito conflito,
mas condenação, repito,
é viver a esperar
alguém que venha
lá do Alto respondendo,
meus problemas resolvendo,
sem que eu saiba onde está;
onde se esconde
esse ser tão desligado,
que não vê o resultado
do que resolveu criar.
Por isso eu digo,
Somos sós, é só matéria,
viemos das bactérias,
a ciência vai provar;
com Charles Darwin,
pai da nobre teoria
(era tudo que eu queria!):
de que a vida vem do mar.
E evoluindo
toda terra, toda espécie,
tudo nasce, tudo cresce,
não sei onde vai parar!
Diria Sartre,
eu o li e te garanto,
é o homem, sem encanto,
condenado a vagar.
E sem comando
ou escolhe a aventura,
sem abonação futura,
ou melhor é se matar.
À minha vista,
li num livro marxista
que a vida é uma conquista
do trabalho a prosperar.
Onde o povo
tem dinheiro sem limite,
todo mundo (acredite!);
pobres? Em nenhum lugar!
Ou pelo menos
tem comida, moradia,
tudo isso é garantia
do governo singular.
Em tais leituras
(mais moderna impossível),
que engenhosidade incrível,
nisto eu quero acreditar.
Não nesse livro,
que escrito há tanto tempo,
por um povo desatento
que não sabe seu lugar.
Espalha o ódio
não a paz, como professa,
seus desvios não confessa,
só sabe dissimular.
E concluindo:
seu estômago roncando
e este sol te estrangulando
não há como resolver.
Me dê teus dados
que voltando ao mundo ativo,
mando-lhe um donativo,
é só o que posso fazer.
E respondendo,
o sofrido cangaceiro,
com pensamento ligeiro
mesmo a fome a o atacar:
Seu dotozinho,
me desculpe, sou sincero,
sua solidão não quero
e lhe digo, quer ouvir?
Aqui no seco,
onde não há segurança,
só se vive de esperança,
tenho um Deus a quem pedir.
Se eu me enfronhasse
Nessa tua maluquice
“Não há Deus!” — Foi o que disse?
Como iria resistir?
De um escritório
é tão fácil palavrório,
mesmo esse tão simplório
pra grã-fino discutir.
Mas no cangaço
esse assunto dá cansaço
e aqui não há espaço,
eu não posso desistir.
(Paulo Cruz)
Quarta-feira, Novembro 05, 2008
God Bless America!
OBAMA
A cor que vai correndo pelo mundo,
nas urnas que anunciam novo tempo,
tornando tudo negro ao redor - tudo!
mudando a cor do sonho americano
nas faces brancas rubras taciturnas,
é a cor da alegria esperançosa.
Do ódio Ku-Klux-Klan ensandecido
à marcha de um milhão, dos muitos sonhos
cercados de ideais; do pacifismo
de Martin Luther King (I Have a Dream!)
ao grito radical de Malcolm X,
uniu o amor de um povo infeliz.
A Terra estarrecida volta os olhos
à imensa minoria, descendente
de escravos sequestrados cruelmente,
mas cheia de organização e orgulho,
mostrou que a determinação termina
por sempre conquistar espaços muitos!
Mas ao mostrar ao mundo uma utopia,
cercar de messianismo um simples homem,
sem ver o mecanismo que isso envolve,
não é o que se deve ter em mente;
e sim por ver na história sobretudo
um afro-americano presidente.
(Paulo Cruz)
A cor que vai correndo pelo mundo,
nas urnas que anunciam novo tempo,
tornando tudo negro ao redor - tudo!
mudando a cor do sonho americano
nas faces brancas rubras taciturnas,
é a cor da alegria esperançosa.
Do ódio Ku-Klux-Klan ensandecido
à marcha de um milhão, dos muitos sonhos
cercados de ideais; do pacifismo
de Martin Luther King (I Have a Dream!)
ao grito radical de Malcolm X,
uniu o amor de um povo infeliz.
A Terra estarrecida volta os olhos
à imensa minoria, descendente
de escravos sequestrados cruelmente,
mas cheia de organização e orgulho,
mostrou que a determinação termina
por sempre conquistar espaços muitos!
Mas ao mostrar ao mundo uma utopia,
cercar de messianismo um simples homem,
sem ver o mecanismo que isso envolve,
não é o que se deve ter em mente;
e sim por ver na história sobretudo
um afro-americano presidente.
(Paulo Cruz)
Sexta-feira, Outubro 24, 2008
SURTO
Que mágoas tão marcadas canto agora!
Meu corpo foi surrado e minha alma
padece em agonia sem disfarce;
quem poderá deter o mal lá fora?
Que lutas me concedem meus labores!
Já não consigo mais seguir em frente,
pois todos meus esforços são derrota;
quem livrará meu corpo penitente?
Que falta de esperança em mim aporta!
Em minha porta a solidão insiste,
e em riste os dedos para mim aponta;
quem pode resistir tamanha afronta?
Que ditos desditosos destes versos!
São frutos de infortúnio tão pungente,
causado em mim por corações perversos.
Quem nunca reclamou inutilmente?
(Paulo Cruz)
Que mágoas tão marcadas canto agora!
Meu corpo foi surrado e minha alma
padece em agonia sem disfarce;
quem poderá deter o mal lá fora?
Que lutas me concedem meus labores!
Já não consigo mais seguir em frente,
pois todos meus esforços são derrota;
quem livrará meu corpo penitente?
Que falta de esperança em mim aporta!
Em minha porta a solidão insiste,
e em riste os dedos para mim aponta;
quem pode resistir tamanha afronta?
Que ditos desditosos destes versos!
São frutos de infortúnio tão pungente,
causado em mim por corações perversos.
Quem nunca reclamou inutilmente?
(Paulo Cruz)
Quinta-feira, Outubro 09, 2008
FAMÍLIA
Ao amigo André Eduardo e família
Homilia do eterno
no belo teor do mundo;
da criação mais carente
de amor,
de maior amor,
de melhor mérito
na alma dos mortais;
que por ser demais precisa,
precisa demais
de mais
amor.
(Paulo Cruz)
Ao amigo André Eduardo e família
Homilia do eterno
no belo teor do mundo;
da criação mais carente
de amor,
de maior amor,
de melhor mérito
na alma dos mortais;
que por ser demais precisa,
precisa demais
de mais
amor.
(Paulo Cruz)
Quarta-feira, Setembro 24, 2008
PRO-CEDER
Penetrar as palavras,
penetrar o cerne
das coisas;
cercear o sabor
dos amores,
saborear o sol,
acusar o caos,
causar desconforto
nas formas,
fortalecer a trama,
tornar terno o teor
dos temas,
desatar a arte,
confrontar os fatos,
mirar as imagens,
minar os medos,
podar o poder,
oferecer a face,
vencer o vácuo
dos vícios,
perder a vida
e achá-la eterna.
(Paulo Cruz)
Penetrar as palavras,
penetrar o cerne
das coisas;
cercear o sabor
dos amores,
saborear o sol,
acusar o caos,
causar desconforto
nas formas,
fortalecer a trama,
tornar terno o teor
dos temas,
desatar a arte,
confrontar os fatos,
mirar as imagens,
minar os medos,
podar o poder,
oferecer a face,
vencer o vácuo
dos vícios,
perder a vida
e achá-la eterna.
(Paulo Cruz)
Segunda-feira, Setembro 15, 2008
Poema a duas mãos!
África
Esse contin-ente
é o gene de tudo,
é o berço do mundo;
é palco sangrento,
é riso e lamento,
é tez de azeviche,
magia e fetiche,
Tão frágil e parente,
Tão sábio e urgente,
É o sangue da gente.
Esse contin-ente,
tão vivo e ardente,
foi tão violado
por povo indecente;
tem tudo e tem nada,
sua história é contada
por seus descendentes,
que já deslocados
por todos os lados
procuram sementes.
(Paulo Cruz e Miguel Garcia)
Esse contin-ente
é o gene de tudo,
é o berço do mundo;
é palco sangrento,
é riso e lamento,
é tez de azeviche,
magia e fetiche,
Tão frágil e parente,
Tão sábio e urgente,
É o sangue da gente.
Esse contin-ente,
tão vivo e ardente,
foi tão violado
por povo indecente;
tem tudo e tem nada,
sua história é contada
por seus descendentes,
que já deslocados
por todos os lados
procuram sementes.
(Paulo Cruz e Miguel Garcia)
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