ATÉ QUE TENHAMOS ROSTOS
Eu te amarei de uma maneira pura,
emudecendo meu desejo ardente;
e caminhando ei de seguir em frente,
sabendo: assim nenhuma dor perdura.
Visitarei teus sonhos sutilmente
e cada passo de tua ação futura;
o mesmo amor que, longe, fere, cura,
pois segue íntegro e, assim, contente.
Não maculei teus lábios com meu riso,
nem mesmo descobri em teu semblante
qualquer sinal de um decoro indeciso.
Maior prazer é mesmo estar diante
desta distância e manter o siso;
ser teu amigo e, em segredo, amante.
quinta-feira, outubro 20, 2011
quinta-feira, junho 30, 2011
...
CARTA A UM JOVEM POETA
a
Érico Nogueira
Contra ti eu pequei; contra o céu? nem se fale!
Destes versos que escrevo, meu Deus!, não sou digno;
pois imito, não minto, não sou criativo
nem ao ponto de ter soluções bem modestas,
que me impeçam de ser um vulgar papagaio.
Ser poeta é assim, um labor dos diabos!,
mas não saio escrevendo qualquer baboseira,
bem por isso procuro teus sábios conselhos.
Sem ter pena de mim, por favor, desça a lenha!
nem que eu tenha que, enfim, desistir (não faz mal),
sou consciente que as coisas não são como quero,
e versar porcaria, eu tô fora, é vergonha.
Mas é sério, me ajude!, eu preciso de um toque.
Não das garras ferozes de um crítico chato,
nem do afago cretino de um puxa-saco;
mas do aval valioso de um literato,
um que saiba de fato o que diz sobre o tema.
Mais que isso, um amigo, a quem admiro
e que miro o modelo perfeito dos versos.sábado, maio 07, 2011
E de repente...
FORTUITO
Um brilho que me arrebata,
sim, estonteantemente
epifânico; momento
de eternidade no tempo
que o instante me concede.
O passo que nem percebe
caminha perante o mundo,
e a vida que corre a mil
há muito não silencia.
Em torno tudo é tumulto.
Então me atiro num átimo
que atormenta, mas estanca
no leve susto que sara.
E num abraço que abarca
o corpo, a alma trespassa,
o Céu e a Terra se encontram.
sexta-feira, dezembro 31, 2010
FELIZ ANO NOVO!
ANO NOVO, DE NOVO
De malas prontas o tempo promete
não voltar atrás,
atrai tudo o que foi premeditado
e aspira um cenário
novo para mover um mundo igual.
é ato contínuo,
não há tempo para eterno retorno,
nem para pensar
o que seria do que já não é.
A festa acabou,
José resolveu seguir seu caminho;
cansou de esperar
que a tal utopia se consumasse
e tornou-se homem.
E derramou seus derradeiros dias
em muitas certezas:
teve certeza da vida e da morte,
do tempo vindouro,
da perene alegria dos eleitos,
da desilusão
dos que desistiram de desvendar
qual senda seguir
para que os sonhos não desvanecessem
e dormiu em paz.
José foi feliz, quem mais o será?
(Paulo Cruz)
sexta-feira, novembro 26, 2010
BRANCO, SILÊNCIO E IMOBILIDADE
à memória de Robert Bresson
à memória de Robert Bresson
Que deserto te cerca, asceta?
Onde vais com tua lancinante luz?
Limpando do céu os excessos,
cercando de sina os modelos,
moldando à inércia teus atos;
Onde vais com tua lancinante luz?
Limpando do céu os excessos,
cercando de sina os modelos,
moldando à inércia teus atos;
onde vais?
Agora que escuto o som de teus silêncios,
Agora que escuto o som de teus silêncios,
que ando atrás das expressões sem face,
faço uma prece e pareço entender
que a vida irradia em monotonia,
que a arte é o tormento do instante,
nutrindo, ainda que distante,
na alma dos homens o afã do infinito.
(Paulo Cruz)
faço uma prece e pareço entender
que a vida irradia em monotonia,
que a arte é o tormento do instante,
nutrindo, ainda que distante,
na alma dos homens o afã do infinito.
(Paulo Cruz)
quarta-feira, outubro 27, 2010
“E a esperança não traz confusão...” (Rm 5:5a)
SACRAMENTO AMIZADE
ao casal amigo Elpídio e Cristina
O Deus que habita em nós em pão e vinho,
também agora habita em amizade.
Em meio aos livros, música, nos filmes,
no crer comum, na força dos conflitos,
na união em prol do pensamento.
Na mesa posta, aposta-se na vida,
na razão sã, na ordem da existência,
tal como desejaram os Antigos.
No estudo, a oração do entendimento,
e na ação do amor (um dom sem preço),
a mística da paz inspira a todos
que aspiram na amizade um bem supremo.
Na comunhão de nobres elementos
― a arte, a fé no Cristo, o intelecto ―
que juntos dão à vida plenitude,
o estar entre os amigos jamais cansa;
da brisa matutina à noite adentro,
tal graça tem um nome: esperança.
(Paulo Cruz)
ao casal amigo Elpídio e Cristina
O Deus que habita em nós em pão e vinho,
também agora habita em amizade.
Em meio aos livros, música, nos filmes,
no crer comum, na força dos conflitos,
na união em prol do pensamento.
Na mesa posta, aposta-se na vida,
na razão sã, na ordem da existência,
tal como desejaram os Antigos.
No estudo, a oração do entendimento,
e na ação do amor (um dom sem preço),
a mística da paz inspira a todos
que aspiram na amizade um bem supremo.
Na comunhão de nobres elementos
― a arte, a fé no Cristo, o intelecto ―
que juntos dão à vida plenitude,
o estar entre os amigos jamais cansa;
da brisa matutina à noite adentro,
tal graça tem um nome: esperança.
(Paulo Cruz)
quinta-feira, setembro 16, 2010
RUÍNA NA NEBLINA
a Theo Angelopoulos
O amor ao mito no divino olhar de Ulisses;
sempre voltando à casa, no retorno à terra
natal, Ítaca, onde o espera Penélope,
que aos importunos fielmente nega afeto.
Triunfante retornou, deslocado e só,
sem reconhecer o solo que tanto amou,
que fora transformado num campo minado
pelos difamadores do Templo de Delfos.
Exilado em seu próprio país adorado,
o herói silencia seu roteiro trágico,
pois a promessa de um mundo sem Homero
não passou de mera quimera libertária.
Caminha atordoado e sem retomar
o que fora perdido com o tempo ausente;
é um transeunte nauseabundo empedernido,
jogado à existência insensata de si
mesmo. Recontando, incansável, sua história,
no contraponto onde se encontram a verdade,
a insistente chuva, o frio e a solidão,
angustia-se na consumação do fato
de que, mesmo enganando o feroz Polifemo
e também revertendo os encantos de Circe,
o cercaram os fatos sombrios da guerra.
Tróia o tornou insensível, e de repente,
mais tarde, se viu obrigado a constatar,
que melhor seria estar, de modo fictício,
no escuro edifício de um cinema, a contar
sua triste história em trinta e cinco milímetros.
(Paulo Cruz)
a Theo Angelopoulos
O amor ao mito no divino olhar de Ulisses;
sempre voltando à casa, no retorno à terra
natal, Ítaca, onde o espera Penélope,
que aos importunos fielmente nega afeto.
Triunfante retornou, deslocado e só,
sem reconhecer o solo que tanto amou,
que fora transformado num campo minado
pelos difamadores do Templo de Delfos.
Exilado em seu próprio país adorado,
o herói silencia seu roteiro trágico,
pois a promessa de um mundo sem Homero
não passou de mera quimera libertária.
Caminha atordoado e sem retomar
o que fora perdido com o tempo ausente;
é um transeunte nauseabundo empedernido,
jogado à existência insensata de si
mesmo. Recontando, incansável, sua história,
no contraponto onde se encontram a verdade,
a insistente chuva, o frio e a solidão,
angustia-se na consumação do fato
de que, mesmo enganando o feroz Polifemo
e também revertendo os encantos de Circe,
o cercaram os fatos sombrios da guerra.
Tróia o tornou insensível, e de repente,
mais tarde, se viu obrigado a constatar,
que melhor seria estar, de modo fictício,
no escuro edifício de um cinema, a contar
sua triste história em trinta e cinco milímetros.
(Paulo Cruz)
quinta-feira, julho 01, 2010
DE MIM
De mim, que já não sou eu mesmo, grito,
porque me falta um pouco ainda, ainda,
nos versos que com dor são arrancados
de mim, pois não consigo ser eu mesmo.
De mim, de mais ninguém, demonstro os erros,
se bem que poderia apontar outros,
que, como eu, não são mais que um instante
de sonho, sanha, sina e céu noturno.
Mas só de mim é que hoje achei motivo.
E ativo um paradoxo dialético,
seguindo a via inversa à que me afronta
e à frente de mim mesmo me confronto.
O espaço é tão concreto e específico...!
Se fico em mim não sei se vou além,
― tal como o além-do-homem nietzscheano ―
ou mesmo até se em mim encontro Deus.
De mim é que exagero e gero dúvidas,
pois sei que sou capaz de mais um pouco;
ao menos de esperança sou munido
a ponto de estar são e também louco.
(Paulo Cruz)
De mim, que já não sou eu mesmo, grito,
porque me falta um pouco ainda, ainda,
nos versos que com dor são arrancados
de mim, pois não consigo ser eu mesmo.
De mim, de mais ninguém, demonstro os erros,
se bem que poderia apontar outros,
que, como eu, não são mais que um instante
de sonho, sanha, sina e céu noturno.
Mas só de mim é que hoje achei motivo.
E ativo um paradoxo dialético,
seguindo a via inversa à que me afronta
e à frente de mim mesmo me confronto.
O espaço é tão concreto e específico...!
Se fico em mim não sei se vou além,
― tal como o além-do-homem nietzscheano ―
ou mesmo até se em mim encontro Deus.
De mim é que exagero e gero dúvidas,
pois sei que sou capaz de mais um pouco;
ao menos de esperança sou munido
a ponto de estar são e também louco.
(Paulo Cruz)
sábado, maio 15, 2010
PRÉ-SOCRÁTICO
Que estado pré-socrático me encontro!
De mim foi retirada a metafísica;
de meus antigos versos, nem vestígio
se encontram nos compêndios filosóficos.
O golpe de Platão veio outro dia;
agora, aquilo que era só um lapso,
lançou-me em solavancos num deserto!
E até pensei que sairia ileso,
driblando o vil rigor das teorias;
mas cedo sucumbi em desespero,
caindo em vãos delírios acadêmicos.
Por isso concluí num silogismo:
se todos são razão filosofando
e eu de igual maneira estou atento;
poeta já não sou, sou pensamento!
(Paulo Cruz)
Que estado pré-socrático me encontro!
De mim foi retirada a metafísica;
de meus antigos versos, nem vestígio
se encontram nos compêndios filosóficos.
O golpe de Platão veio outro dia;
agora, aquilo que era só um lapso,
lançou-me em solavancos num deserto!
E até pensei que sairia ileso,
driblando o vil rigor das teorias;
mas cedo sucumbi em desespero,
caindo em vãos delírios acadêmicos.
Por isso concluí num silogismo:
se todos são razão filosofando
e eu de igual maneira estou atento;
poeta já não sou, sou pensamento!
(Paulo Cruz)
sexta-feira, janeiro 22, 2010
COM VOCÊ, SEM VOCÊ
à minha esposa Abigail
Sem você, noite triste
Com você, bem querer
Sem você, vida existe
Com você, mais viver
Sem você, grão delírio
Com você, mente sã
Sem você, vão martírio
Com você, fim do afã
Sem você, gela a alma
Com você, corpo ardente
Sem você, não há calma
Com você, paz prudente
Sem você, rubra aurora
Com você, céu luzente
Sem você, o riso chora
Com você, está contente
Sem você, preto-e-branco
Com você, colorido
Sem você, saltimbanco
Com você, comedido
Sem você, Afrodite
Com você, Psiquê
Sem você, sem limite
Com você, sem você.
(Paulo Cruz)
à minha esposa Abigail
Sem você, noite triste
Com você, bem querer
Sem você, vida existe
Com você, mais viver
Sem você, grão delírio
Com você, mente sã
Sem você, vão martírio
Com você, fim do afã
Sem você, gela a alma
Com você, corpo ardente
Sem você, não há calma
Com você, paz prudente
Sem você, rubra aurora
Com você, céu luzente
Sem você, o riso chora
Com você, está contente
Sem você, preto-e-branco
Com você, colorido
Sem você, saltimbanco
Com você, comedido
Sem você, Afrodite
Com você, Psiquê
Sem você, sem limite
Com você, sem você.
(Paulo Cruz)
sexta-feira, janeiro 15, 2010
HAITI
Não há em ti beleza,
há em ti escuridão e morte,
tremor de terra,
terror e medo.
Há em ti a impotência,
há em ti o espólio
na instigante ganância
dos negociantes de gentes.
Há em ti a intriga,
o racismo
do raciocínio inferior
do homem branco.
Há em ti o clamor
pela paz,
pelo dissipar da discórdia
entre irmãos.
Há em ti mãos ensangüentadas,
na guerra
e no mistério demonizado
de teus ritos.
Há em ti a sensação
de desespero
e o grito lancinante
diante de tanta humilhação.
Em ti há
inversão de valores;
e os que te devem
te devoram deveras.
Há em ti, Haiti
o que há em mim,
e em teus escombros
escondo a vergonha
de nunca ter chorado por ti.
(Paulo Cruz)
Não há em ti beleza,
há em ti escuridão e morte,
tremor de terra,
terror e medo.
Há em ti a impotência,
há em ti o espólio
na instigante ganância
dos negociantes de gentes.
Há em ti a intriga,
o racismo
do raciocínio inferior
do homem branco.
Há em ti o clamor
pela paz,
pelo dissipar da discórdia
entre irmãos.
Há em ti mãos ensangüentadas,
na guerra
e no mistério demonizado
de teus ritos.
Há em ti a sensação
de desespero
e o grito lancinante
diante de tanta humilhação.
Em ti há
inversão de valores;
e os que te devem
te devoram deveras.
Há em ti, Haiti
o que há em mim,
e em teus escombros
escondo a vergonha
de nunca ter chorado por ti.
(Paulo Cruz)
quinta-feira, dezembro 17, 2009
TEUS SOLOS
a Miguel Garcia
Tuas emanações artísticas
não poderiam ter outro nome:
Acordes! – é o que me dizes.
Assim, desperto, caminho em teus solos,
de peito aberto respiro
teus ar-pejos pujantes,
catalogando cada um de teus dedilhados
ilhado em tuas ondas sonoras,
colhendo cada escala saciado.
Teu canto é centro, vasto mundo
habitado de infinitos horizontes,
onde vozes tantas envolvem
uma única solidão,
na angustiante tarefa de ser e amar.
(Paulo Cruz)
http://miguelgarciapoeta.blogspot.com
a Miguel Garcia
Tuas emanações artísticas
não poderiam ter outro nome:
Acordes! – é o que me dizes.
Assim, desperto, caminho em teus solos,
de peito aberto respiro
teus ar-pejos pujantes,
catalogando cada um de teus dedilhados
ilhado em tuas ondas sonoras,
colhendo cada escala saciado.
Teu canto é centro, vasto mundo
habitado de infinitos horizontes,
onde vozes tantas envolvem
uma única solidão,
na angustiante tarefa de ser e amar.
(Paulo Cruz)
http://miguelgarciapoeta.blogspot.com
terça-feira, dezembro 01, 2009
MINHA PRECE
Ao que parece, minha prece
não foi ouvida.
Não digo que não tenho crido,
são meus sentidos que, frustrados,
não têm dado chance a estados
mais receptivos.
Sei, é necessário sarar minha mente,
pois enquanto meus olhos marejados
não minarem estas lágrimas,
de maneira alguma serei são.
Permanecerei filho desta loucura
que me arrasta,
escravo desta incredulidade doente...
e propenso a escapes.
Porém, não me culpem os constantes,
sou assim mesmo, movediço.
Sou aquele caniço
movido pelo vento;
cuja face aguerrida
pelo dorso curvado,
toca a Água da Vida.
(Paulo Cruz)
Ao que parece, minha prece
não foi ouvida.
Não digo que não tenho crido,
são meus sentidos que, frustrados,
não têm dado chance a estados
mais receptivos.
Sei, é necessário sarar minha mente,
pois enquanto meus olhos marejados
não minarem estas lágrimas,
de maneira alguma serei são.
Permanecerei filho desta loucura
que me arrasta,
escravo desta incredulidade doente...
e propenso a escapes.
Porém, não me culpem os constantes,
sou assim mesmo, movediço.
Sou aquele caniço
movido pelo vento;
cuja face aguerrida
pelo dorso curvado,
toca a Água da Vida.
(Paulo Cruz)
quinta-feira, julho 09, 2009
NÉVOA EM NEVERLAND
à memória de Michael Jackson
Enfim a criança cresceu.
Deixou o castelo de seus sonhos
e preferiu a perfeição celeste
que buscou a todo custo,
em todo tempo, a vida toda.
Tolhido do direito de dizer
as próprias palavras,
preterido pela maturidade precoce
e ao mesmo tempo aprisionado
numa infância nunca finda,
o herói tentou curar o mundo
expondo seu ponto mais fraco,
tornando-se um excêntrico
no cenário musical,
um produto infeliz do show bizz.
Seria leviano um astro
andar na lua?
Descanse em paz, pobre menino.
Cante livremente os louvores eternos
e enterneça os ouvidos de Deus,
ganhando agora o lugar melhor
que tanto almejou;
pois aqui, na Terra do Nunca,
o duro destino que de ti nos aparta
ainda espera por nós.
(Paulo Cruz)
à memória de Michael Jackson
Enfim a criança cresceu.
Deixou o castelo de seus sonhos
e preferiu a perfeição celeste
que buscou a todo custo,
em todo tempo, a vida toda.
Tolhido do direito de dizer
as próprias palavras,
preterido pela maturidade precoce
e ao mesmo tempo aprisionado
numa infância nunca finda,
o herói tentou curar o mundo
expondo seu ponto mais fraco,
tornando-se um excêntrico
no cenário musical,
um produto infeliz do show bizz.
Seria leviano um astro
andar na lua?
Descanse em paz, pobre menino.
Cante livremente os louvores eternos
e enterneça os ouvidos de Deus,
ganhando agora o lugar melhor
que tanto almejou;
pois aqui, na Terra do Nunca,
o duro destino que de ti nos aparta
ainda espera por nós.
(Paulo Cruz)
quarta-feira, abril 01, 2009
A REPÚBLICA DO POETA
Que duro golpe me aplicou Platão
e sua República de pudicos.
desvendou o segredo dos aedos
chamou de mentira a arte dramática
e questionou, à maneira socrática,
os hexâmetros perfeitos do Mestre,
acusando-os de mera imitação.
Não permitiu aos deuses sentimentos
dúbios, propriedade dos humanos;
a detenção serena da verdade
é o que cabia aos impassíveis numes,
e declamar só seria possível
aquilo que passasse pelo crivo
"democrático" de seus escolhidos.
Ora essa estadista, não me assuste!
Só me recuperei lendo Aristóteles,
que diz que a poesia é mais que história
e a meta principal é o possível.
Respiro aliviado lendo a Íliada,
de posse da Odisséia louvo Ulisses
e mesmo eu agora escrevo versos,
pois salvo do infortúnio pelas musas,
não posso mais calar meu canto alegre.
E ainda mais, estou recuperado,
não sofro mais da crise que eu sofria
e sigo em paz com a Filosofia.
(Paulo Cruz)
Que duro golpe me aplicou Platão
e sua República de pudicos.
desvendou o segredo dos aedos
chamou de mentira a arte dramática
e questionou, à maneira socrática,
os hexâmetros perfeitos do Mestre,
acusando-os de mera imitação.
Não permitiu aos deuses sentimentos
dúbios, propriedade dos humanos;
a detenção serena da verdade
é o que cabia aos impassíveis numes,
e declamar só seria possível
aquilo que passasse pelo crivo
"democrático" de seus escolhidos.
Ora essa estadista, não me assuste!
Só me recuperei lendo Aristóteles,
que diz que a poesia é mais que história
e a meta principal é o possível.
Respiro aliviado lendo a Íliada,
de posse da Odisséia louvo Ulisses
e mesmo eu agora escrevo versos,
pois salvo do infortúnio pelas musas,
não posso mais calar meu canto alegre.
E ainda mais, estou recuperado,
não sofro mais da crise que eu sofria
e sigo em paz com a Filosofia.
(Paulo Cruz)
quarta-feira, novembro 12, 2008
UM NEO-ATEU VISITA O SERTÃO
Seu cangaceiro
porque tanto desatino?
Não há Deus, não há destino,
nem há céu onde morar.
A vida é isso,
muita dor, muito conflito,
mas condenação, repito,
é viver a esperar
alguém que venha
lá do Alto respondendo,
meus problemas resolvendo,
sem que eu saiba onde está;
onde se esconde
esse ser tão desligado,
que não vê o resultado
do que resolveu criar.
Por isso eu digo,
Somos sós, é só matéria,
viemos das bactérias,
a ciência vai provar;
com Charles Darwin,
pai da nobre teoria
(era tudo que eu queria!):
de que a vida vem do mar.
E evoluindo
toda terra, toda espécie,
tudo nasce, tudo cresce,
não sei onde vai parar!
Diria Sartre,
eu o li e te garanto,
é o homem, sem encanto,
condenado a vagar.
E sem comando
ou escolhe a aventura,
sem abonação futura,
ou melhor é se matar.
À minha vista,
li num livro marxista
que a vida é uma conquista
do trabalho a prosperar.
Onde o povo
tem dinheiro sem limite,
todo mundo (acredite!);
pobres? Em nenhum lugar!
Ou pelo menos
tem comida, moradia,
tudo isso é garantia
do governo singular.
Em tais leituras
(mais moderna impossível),
que engenhosidade incrível,
nisto eu quero acreditar.
Não nesse livro,
que escrito há tanto tempo,
por um povo desatento
que não sabe seu lugar.
Espalha o ódio
não a paz, como professa,
seus desvios não confessa,
só sabe dissimular.
E concluindo:
seu estômago roncando
e este sol te estrangulando
não há como resolver.
Me dê teus dados
que voltando ao mundo ativo,
mando-lhe um donativo,
é só o que posso fazer.
E respondendo,
o sofrido cangaceiro,
com pensamento ligeiro
mesmo a fome a o atacar:
Seu dotozinho,
me desculpe, sou sincero,
sua solidão não quero
e lhe digo, quer ouvir?
Aqui no seco,
onde não há segurança,
só se vive de esperança,
tenho um Deus a quem pedir.
Se eu me enfronhasse
Nessa tua maluquice
“Não há Deus!” — Foi o que disse?
Como iria resistir?
De um escritório
é tão fácil palavrório,
mesmo esse tão simplório
pra grã-fino discutir.
Mas no cangaço
esse assunto dá cansaço
e aqui não há espaço,
eu não posso desistir.
(Paulo Cruz)
Seu cangaceiro
porque tanto desatino?
Não há Deus, não há destino,
nem há céu onde morar.
A vida é isso,
muita dor, muito conflito,
mas condenação, repito,
é viver a esperar
alguém que venha
lá do Alto respondendo,
meus problemas resolvendo,
sem que eu saiba onde está;
onde se esconde
esse ser tão desligado,
que não vê o resultado
do que resolveu criar.
Por isso eu digo,
Somos sós, é só matéria,
viemos das bactérias,
a ciência vai provar;
com Charles Darwin,
pai da nobre teoria
(era tudo que eu queria!):
de que a vida vem do mar.
E evoluindo
toda terra, toda espécie,
tudo nasce, tudo cresce,
não sei onde vai parar!
Diria Sartre,
eu o li e te garanto,
é o homem, sem encanto,
condenado a vagar.
E sem comando
ou escolhe a aventura,
sem abonação futura,
ou melhor é se matar.
À minha vista,
li num livro marxista
que a vida é uma conquista
do trabalho a prosperar.
Onde o povo
tem dinheiro sem limite,
todo mundo (acredite!);
pobres? Em nenhum lugar!
Ou pelo menos
tem comida, moradia,
tudo isso é garantia
do governo singular.
Em tais leituras
(mais moderna impossível),
que engenhosidade incrível,
nisto eu quero acreditar.
Não nesse livro,
que escrito há tanto tempo,
por um povo desatento
que não sabe seu lugar.
Espalha o ódio
não a paz, como professa,
seus desvios não confessa,
só sabe dissimular.
E concluindo:
seu estômago roncando
e este sol te estrangulando
não há como resolver.
Me dê teus dados
que voltando ao mundo ativo,
mando-lhe um donativo,
é só o que posso fazer.
E respondendo,
o sofrido cangaceiro,
com pensamento ligeiro
mesmo a fome a o atacar:
Seu dotozinho,
me desculpe, sou sincero,
sua solidão não quero
e lhe digo, quer ouvir?
Aqui no seco,
onde não há segurança,
só se vive de esperança,
tenho um Deus a quem pedir.
Se eu me enfronhasse
Nessa tua maluquice
“Não há Deus!” — Foi o que disse?
Como iria resistir?
De um escritório
é tão fácil palavrório,
mesmo esse tão simplório
pra grã-fino discutir.
Mas no cangaço
esse assunto dá cansaço
e aqui não há espaço,
eu não posso desistir.
(Paulo Cruz)
quarta-feira, novembro 05, 2008
God Bless America!
OBAMA
A cor que vai correndo pelo mundo,
nas urnas que anunciam novo tempo,
tornando tudo negro ao redor - tudo!
mudando a cor do sonho americano
nas faces brancas rubras taciturnas,
é a cor da alegria esperançosa.
Do ódio Ku-Klux-Klan ensandecido
à marcha de um milhão, dos muitos sonhos
cercados de ideais; do pacifismo
de Martin Luther King (I Have a Dream!)
ao grito radical de Malcolm X,
uniu o amor de um povo infeliz.
A Terra estarrecida volta os olhos
à imensa minoria, descendente
de escravos sequestrados cruelmente,
mas cheia de organização e orgulho,
mostrou que a determinação termina
por sempre conquistar espaços muitos!
Mas ao mostrar ao mundo uma utopia,
cercar de messianismo um simples homem,
sem ver o mecanismo que isso envolve,
não é o que se deve ter em mente;
e sim por ver na história sobretudo
um afro-americano presidente.
(Paulo Cruz)
A cor que vai correndo pelo mundo,
nas urnas que anunciam novo tempo,
tornando tudo negro ao redor - tudo!
mudando a cor do sonho americano
nas faces brancas rubras taciturnas,
é a cor da alegria esperançosa.
Do ódio Ku-Klux-Klan ensandecido
à marcha de um milhão, dos muitos sonhos
cercados de ideais; do pacifismo
de Martin Luther King (I Have a Dream!)
ao grito radical de Malcolm X,
uniu o amor de um povo infeliz.
A Terra estarrecida volta os olhos
à imensa minoria, descendente
de escravos sequestrados cruelmente,
mas cheia de organização e orgulho,
mostrou que a determinação termina
por sempre conquistar espaços muitos!
Mas ao mostrar ao mundo uma utopia,
cercar de messianismo um simples homem,
sem ver o mecanismo que isso envolve,
não é o que se deve ter em mente;
e sim por ver na história sobretudo
um afro-americano presidente.
(Paulo Cruz)
sexta-feira, outubro 24, 2008
SURTO
Que mágoas tão marcadas canto agora!
Meu corpo foi surrado e minha alma
padece em agonia sem disfarce;
quem poderá deter o mal lá fora?
Que lutas me concedem meus labores!
Já não consigo mais seguir em frente,
pois todos meus esforços são derrota;
quem livrará meu corpo penitente?
Que falta de esperança em mim aporta!
Em minha porta a solidão insiste,
e em riste os dedos para mim aponta;
quem pode resistir tamanha afronta?
Que ditos desditosos destes versos!
São frutos de infortúnio tão pungente,
causado em mim por corações perversos.
Quem nunca reclamou inutilmente?
(Paulo Cruz)
Que mágoas tão marcadas canto agora!
Meu corpo foi surrado e minha alma
padece em agonia sem disfarce;
quem poderá deter o mal lá fora?
Que lutas me concedem meus labores!
Já não consigo mais seguir em frente,
pois todos meus esforços são derrota;
quem livrará meu corpo penitente?
Que falta de esperança em mim aporta!
Em minha porta a solidão insiste,
e em riste os dedos para mim aponta;
quem pode resistir tamanha afronta?
Que ditos desditosos destes versos!
São frutos de infortúnio tão pungente,
causado em mim por corações perversos.
Quem nunca reclamou inutilmente?
(Paulo Cruz)
quinta-feira, outubro 09, 2008
quarta-feira, setembro 24, 2008
PRO-CEDER
Penetrar as palavras,
penetrar o cerne
das coisas;
cercear o sabor
dos amores,
saborear o sol,
acusar o caos,
causar desconforto
nas formas,
fortalecer a trama,
tornar terno o teor
dos temas,
desatar a arte,
confrontar os fatos,
mirar as imagens,
minar os medos,
podar o poder,
oferecer a face,
vencer o vácuo
dos vícios,
perder a vida
e achá-la eterna.
(Paulo Cruz)
Penetrar as palavras,
penetrar o cerne
das coisas;
cercear o sabor
dos amores,
saborear o sol,
acusar o caos,
causar desconforto
nas formas,
fortalecer a trama,
tornar terno o teor
dos temas,
desatar a arte,
confrontar os fatos,
mirar as imagens,
minar os medos,
podar o poder,
oferecer a face,
vencer o vácuo
dos vícios,
perder a vida
e achá-la eterna.
(Paulo Cruz)
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