quinta-feira, julho 01, 2010

DE MIM

De mim, que já não sou eu mesmo, grito,
porque me falta um pouco ainda, ainda,
nos versos que com dor são arrancados
de mim, pois não consigo ser eu mesmo.

De mim, de mais ninguém, demonstro os erros,
se bem que poderia apontar outros,
que, como eu, não são mais que um instante
de sonho, sanha, sina e céu noturno.

Mas só de mim é que hoje achei motivo.
E ativo um paradoxo dialético,
seguindo a via inversa à que me afronta
e à frente de mim mesmo me confronto.

O espaço é tão concreto e específico...!
Se fico em mim não sei se vou além,
― tal como o além-do-homem nietzscheano ―
ou mesmo até se em mim encontro Deus.

De mim é que exagero e gero dúvidas,
pois sei que sou capaz de mais um pouco;
ao menos de esperança sou munido
a ponto de estar são e também louco.

(Paulo Cruz)

sábado, maio 15, 2010

PRÉ-SOCRÁTICO

Que estado pré-socrático me encontro!
De mim foi retirada a metafísica;
de meus antigos versos, nem vestígio
se encontram nos compêndios filosóficos.

O golpe de Platão veio outro dia;
agora, aquilo que era só um lapso,
lançou-me em solavancos num deserto!
E até pensei que sairia ileso,

driblando o vil rigor das teorias;
mas cedo sucumbi em desespero,
caindo em vãos delírios acadêmicos.
Por isso concluí num silogismo:

se todos são razão filosofando
e eu de igual maneira estou atento;
poeta já não sou, sou pensamento!

(Paulo Cruz)

sexta-feira, janeiro 22, 2010

COM VOCÊ, SEM VOCÊ
à minha esposa Abigail

Sem você, noite triste
Com você, bem querer
Sem você, vida existe
Com você, mais viver

Sem você, grão delírio
Com você, mente sã
Sem você, vão martírio
Com você, fim do afã

Sem você, gela a alma
Com você, corpo ardente
Sem você, não há calma
Com você, paz prudente

Sem você, rubra aurora
Com você, céu luzente
Sem você, o riso chora
Com você, está contente

Sem você, preto-e-branco
Com você, colorido
Sem você, saltimbanco
Com você, comedido

Sem você, Afrodite
Com você, Psiquê
Sem você, sem limite
Com você, sem você.

(Paulo Cruz)

sexta-feira, janeiro 15, 2010

HAITI

Não há em ti beleza,
há em ti escuridão e morte,
tremor de terra,
terror e medo.

Há em ti a impotência,
há em ti o espólio
na instigante ganância
dos negociantes de gentes.

Há em ti a intriga,
o racismo
do raciocínio inferior
do homem branco.

Há em ti o clamor
pela paz,
pelo dissipar da discórdia
entre irmãos.

Há em ti mãos ensangüentadas,
na guerra
e no mistério demonizado
de teus ritos.

Há em ti a sensação
de desespero
e o grito lancinante
diante de tanta humilhação.

Em ti há
inversão de valores;
e os que te devem
te devoram deveras.

Há em ti, Haiti
o que há em mim,
e em teus escombros
escondo a vergonha

de nunca ter chorado por ti.

(Paulo Cruz)

quinta-feira, dezembro 17, 2009

TEUS SOLOS
a Miguel Garcia

Tuas emanações artísticas
não poderiam ter outro nome:
Acordes! – é o que me dizes.
Assim, desperto, caminho em teus solos,
de peito aberto respiro
teus ar-pejos pujantes,
catalogando cada um de teus dedilhados
ilhado em tuas ondas sonoras,
colhendo cada escala saciado.
Teu canto é centro, vasto mundo
habitado de infinitos horizontes,
onde vozes tantas envolvem
uma única solidão,
na angustiante tarefa de ser e amar.

(Paulo Cruz)

http://miguelgarciapoeta.blogspot.com

terça-feira, dezembro 01, 2009

MINHA PRECE

Ao que parece, minha prece
não foi ouvida.
Não digo que não tenho crido,
são meus sentidos que, frustrados,
não têm dado chance a estados
mais receptivos.

Sei, é necessário sarar minha mente,
pois enquanto meus olhos marejados
não minarem estas lágrimas,
de maneira alguma serei são.
Permanecerei filho desta loucura
que me arrasta,
escravo desta incredulidade doente...
e propenso a escapes.

Porém, não me culpem os constantes,
sou assim mesmo, movediço.

Sou aquele caniço
movido pelo vento;
cuja face aguerrida
pelo dorso curvado,
toca a Água da Vida.

(Paulo Cruz)

quinta-feira, julho 09, 2009

NÉVOA EM NEVERLAND
à memória de Michael Jackson

Enfim a criança cresceu.
Deixou o castelo de seus sonhos
e preferiu a perfeição celeste
que buscou a todo custo,
em todo tempo, a vida toda.
Tolhido do direito de dizer
as próprias palavras,
preterido pela maturidade precoce
e ao mesmo tempo aprisionado
numa infância nunca finda,
o herói tentou curar o mundo
expondo seu ponto mais fraco,
tornando-se um excêntrico
no cenário musical,
um produto infeliz do show bizz.

Seria leviano um astro
andar na lua?

Descanse em paz, pobre menino.
Cante livremente os louvores eternos
e enterneça os ouvidos de Deus,
ganhando agora o lugar melhor
que tanto almejou;
pois aqui, na Terra do Nunca,
o duro destino que de ti nos aparta
ainda espera por nós.

(Paulo Cruz)

quarta-feira, abril 01, 2009

A REPÚBLICA DO POETA

Que duro golpe me aplicou Platão
e sua República de pudicos.
desvendou o segredo dos aedos
chamou de mentira a arte dramática
e questionou, à maneira socrática,
os hexâmetros perfeitos do Mestre,
acusando-os de mera imitação.
Não permitiu aos deuses sentimentos
dúbios, propriedade dos humanos;
a detenção serena da verdade
é o que cabia aos impassíveis numes,
e declamar só seria possível
aquilo que passasse pelo crivo
"democrático" de seus escolhidos.

Ora essa estadista, não me assuste!
Só me recuperei lendo Aristóteles,
que diz que a poesia é mais que história
e a meta principal é o possível.
Respiro aliviado lendo a Íliada,
de posse da Odisséia louvo Ulisses
e mesmo eu agora escrevo versos,
pois salvo do infortúnio pelas musas,
não posso mais calar meu canto alegre.
E ainda mais, estou recuperado,
não sofro mais da crise que eu sofria
e sigo em paz com a Filosofia.

(Paulo Cruz)

quarta-feira, novembro 12, 2008

UM NEO-ATEU VISITA O SERTÃO

Seu cangaceiro
porque tanto desatino?
Não há Deus, não há destino,
nem há céu onde morar.

A vida é isso,
muita dor, muito conflito,
mas condenação, repito,
é viver a esperar

alguém que venha
lá do Alto respondendo,
meus problemas resolvendo,
sem que eu saiba onde está;

onde se esconde
esse ser tão desligado,
que não vê o resultado
do que resolveu criar.

Por isso eu digo,
Somos sós, é só matéria,
viemos das bactérias,
a ciência vai provar;

com Charles Darwin,
pai da nobre teoria
(era tudo que eu queria!):
de que a vida vem do mar.

E evoluindo
toda terra, toda espécie,
tudo nasce, tudo cresce,
não sei onde vai parar!

Diria Sartre,
eu o li e te garanto,
é o homem, sem encanto,
condenado a vagar.

E sem comando
ou escolhe a aventura,
sem abonação futura,
ou melhor é se matar.

À minha vista,
li num livro marxista
que a vida é uma conquista
do trabalho a prosperar.

Onde o povo
tem dinheiro sem limite,
todo mundo (acredite!);
pobres? Em nenhum lugar!

Ou pelo menos
tem comida, moradia,
tudo isso é garantia
do governo singular.

Em tais leituras
(mais moderna impossível),
que engenhosidade incrível,
nisto eu quero acreditar.

Não nesse livro,
que escrito há tanto tempo,
por um povo desatento
que não sabe seu lugar.

Espalha o ódio
não a paz, como professa,
seus desvios não confessa,
só sabe dissimular.

E concluindo:
seu estômago roncando
e este sol te estrangulando
não há como resolver.

Me dê teus dados
que voltando ao mundo ativo,
mando-lhe um donativo,
é só o que posso fazer.

E respondendo,
o sofrido cangaceiro,
com pensamento ligeiro
mesmo a fome a o atacar:

Seu dotozinho,
me desculpe, sou sincero,
sua solidão não quero
e lhe digo, quer ouvir?

Aqui no seco,
onde não há segurança,
só se vive de esperança,
tenho um Deus a quem pedir.

Se eu me enfronhasse
Nessa tua maluquice
“Não há Deus!” — Foi o que disse?
Como iria resistir?

De um escritório
é tão fácil palavrório,
mesmo esse tão simplório
pra grã-fino discutir.

Mas no cangaço
esse assunto dá cansaço
e aqui não há espaço,
eu não posso desistir.

(Paulo Cruz)

quarta-feira, novembro 05, 2008

God Bless America!

OBAMA

A cor que vai correndo pelo mundo,
nas urnas que anunciam novo tempo,
tornando tudo negro ao redor - tudo!
mudando a cor do sonho americano
nas faces brancas rubras taciturnas,
é a cor da alegria esperançosa.

Do ódio Ku-Klux-Klan ensandecido
à marcha de um milhão, dos muitos sonhos
cercados de ideais; do pacifismo
de Martin Luther King (I Have a Dream!)
ao grito radical de Malcolm X,
uniu o amor de um povo infeliz.

A Terra estarrecida volta os olhos
à imensa minoria, descendente
de escravos sequestrados cruelmente,
mas cheia de organização e orgulho,
mostrou que a determinação termina
por sempre conquistar espaços muitos!

Mas ao mostrar ao mundo uma utopia,
cercar de messianismo um simples homem,
sem ver o mecanismo que isso envolve,
não é o que se deve ter em mente;
e sim por ver na história sobretudo
um afro-americano presidente.

(Paulo Cruz)

sexta-feira, outubro 24, 2008

SURTO

Que mágoas tão marcadas canto agora!
Meu corpo foi surrado e minha alma
padece em agonia sem disfarce;
quem poderá deter o mal lá fora?

Que lutas me concedem meus labores!
Já não consigo mais seguir em frente,
pois todos meus esforços são derrota;
quem livrará meu corpo penitente?

Que falta de esperança em mim aporta!
Em minha porta a solidão insiste,
e em riste os dedos para mim aponta;
quem pode resistir tamanha afronta?

Que ditos desditosos destes versos!
São frutos de infortúnio tão pungente,
causado em mim por corações perversos.
Quem nunca reclamou inutilmente?

(Paulo Cruz)

quinta-feira, outubro 09, 2008

FAMÍLIA
Ao amigo André Eduardo e família

Homilia do eterno
no belo teor do mundo;
da criação mais carente
de amor,
de maior amor,
de melhor mérito
na alma dos mortais;
que por ser demais precisa,
precisa demais
de mais
amor.

(Paulo Cruz)

quarta-feira, setembro 24, 2008

PRO-CEDER

Penetrar as palavras,
penetrar o cerne
das coisas;
cercear o sabor
dos amores,
saborear o sol,
acusar o caos,
causar desconforto
nas formas,
fortalecer a trama,
tornar terno o teor
dos temas,
desatar a arte,
confrontar os fatos,
mirar as imagens,
minar os medos,
podar o poder,
oferecer a face,
vencer o vácuo
dos vícios,
perder a vida
e achá-la eterna.

(Paulo Cruz)

segunda-feira, setembro 15, 2008

Poema a duas mãos!

África

Esse contin-ente
é o gene de tudo,
é o berço do mundo;
é palco sangrento,
é riso e lamento,
é tez de azeviche,
magia e fetiche,
Tão frágil e parente,
Tão sábio e urgente,
É o sangue da gente.

Esse contin-ente,
tão vivo e ardente,
foi tão violado
por povo indecente;
tem tudo e tem nada,
sua história é contada
por seus descendentes,
que já deslocados
por todos os lados
procuram sementes.

(Paulo Cruz e Miguel Garcia)

sexta-feira, agosto 29, 2008

“Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.” (Fernando Pessoa)

ESTIAGEM

Serôdia foi a chuva que surgiu
certo dia
e o rio se encheu de águas caudalosas.
E eu à beira,
zeloso entre o prazer da correnteza,
e a certeza
de não poder banhar-me por inteiro.
Era um sonho,
e eu sentado em companhia ilustre
não sabia,
que tal cenário se dissiparia
tão ligeiro,
que o belo da paisagem que eu nutria
em meu corpo,
jamais encobriria o meu tesouro.

E por fim,
as águas que corriam caudalosas
se calaram,
irrigaram o solo de meus sonhos
e partiram,
em novas substâncias transformadas.
Era um risco
trilhar por um caminho tão incerto,
pois seu curso
feria de erosão a terra fértil.
Por receio,
o rio não foi ao mar tornar-se intenso
e seu leito
secou sob a aridez de um deserto.

(Paulo Cruz)

quarta-feira, agosto 13, 2008

O SONHO DE UM POETASTRO

Meus vocábulos são quiméricos!
De fato são estratosféricos
os meus estertores verbais.
São meus vãos delírios poéticos,
a (im)precisão milimétrica,
o ritmo, a rima, a métrica
e, acima de tudo, o estilo;
e muito mais, assim assaz
a minha intensa produção,
a (a)versão total dos fatos
narrados à minha maneira,
tão estável e tão (estúpida?)
bem esculpida em belos versos
vernáculos, e combinados
à risca, ao lado de um anseio
pela perfeição no escrito.
Em um sentido mais estrito,
meu profundo anseio é somente,
no futuro, figurar neste
vasto cenário literário
das séries, das antologias
e descansar em uma estante,
perdido, até ser encontrado
por um leitor inveterado,
à vista de um alfarrabista.

(Paulo Cruz)

sexta-feira, julho 25, 2008

ERA DIA

Amei-te em tudo que fiz;
não mais era noite
em meu coração,
era dia,
era a aurora que fria
iluminava-me
e eu estava nu
em meus sentimentos.
Havia em mim a pureza
de poder entregar-me,
de mudar meus medos,
de medrar minha vida,
e virar o veio de minha sorte.

Mas por um corte terrível
enterrei meu triunfo,
tripudiei minha moral
e amorteci meu amor.
Sem calcular que em ti
atirava minhas tralhas,
traía meu próprio ser
e o opróbrio, enfim,
seria o meu fim.

(Paulo Cruz )

quarta-feira, julho 09, 2008

Comunhão, eis tudo!

"EUCHARISTÍA"
A Miguel Garcia e família

Comer e comer
e unir-me a ti
e tirar de mim
o não de nós,
os nós que me separam
de mim, de ti,
detido de amar,
de ter dado demais,
a mais, a sós,
sem Deus
sem seus manjares partilhar,
ilhado de ti,
de nós,
sem luz, sem sal,
sem ser comensal,
sem comer de mim,
de ti, de nós,
sem no dealbar beber
e aguçar o paladar;
e comer um doce de noz
moscada
e mascar Deus
e beber Jesus
e na Cruz
adeus solidão.

(Paulo Cruz)

terça-feira, junho 10, 2008

NEGRITUDE
À memória de Aimé Césaire

Ponta de lança,
de faca no peito;
uma chama
de sangue que sobe
e eclode na ponta
da pena,
na luta do povo
preto oprimido;
que agora anuncia
com rimas, metros, pés,
liberdade através
da poesia.

(Paulo Cruz)
AMOR DE VERANEIO

Nunca tive um amor de veraneio.
Meus amores todos foram maiores
do que eu mesmo, maiores que eu
em minha modestíssima estatura,
maiores que meu coração, acima
de minha capacidade de ser
menor que o necessário a uma paixão.
Meus amores duram a vida toda,
e são parte de mim, de minha arte,
são o que fui e sou ao mesmo tempo,
meu futuro saturado de vida,
são a todo momento e num instante
são tudo de mim e o que nada tive,
são de tudo o que tenho, o mais humano
e o mais humilde mistério em mim,
meu clamor ao infinito, ao Eterno
(pois só o Eterno ama ternamente).
Minha mente arde de amores vivos,
e nunca é tarde para amar senão
tudo o que existe; nada é passageiro.

Amor de veraneio é um devaneio,
nunca me entreguei senão por inteiro.

(Paulo Cruz)