quarta-feira, julho 09, 2008
Comunhão, eis tudo!
A Miguel Garcia e família
Comer e comer
e unir-me a ti
e tirar de mim
o não de nós,
os nós que me separam
de mim, de ti,
detido de amar,
de ter dado demais,
a mais, a sós,
sem Deus
sem seus manjares partilhar,
ilhado de ti,
de nós,
sem luz, sem sal,
sem ser comensal,
sem comer de mim,
de ti, de nós,
sem no dealbar beber
e aguçar o paladar;
e comer um doce de noz
moscada
e mascar Deus
e beber Jesus
e na Cruz
adeus solidão.
(Paulo Cruz)
terça-feira, junho 10, 2008
Nunca tive um amor de veraneio.
Meus amores todos foram maiores
do que eu mesmo, maiores que eu
em minha modestíssima estatura,
maiores que meu coração, acima
de minha capacidade de ser
menor que o necessário a uma paixão.
Meus amores duram a vida toda,
e são parte de mim, de minha arte,
são o que fui e sou ao mesmo tempo,
meu futuro saturado de vida,
são a todo momento e num instante
são tudo de mim e o que nada tive,
são de tudo o que tenho, o mais humano
e o mais humilde mistério em mim,
meu clamor ao infinito, ao Eterno
(pois só o Eterno ama ternamente).
Minha mente arde de amores vivos,
e nunca é tarde para amar senão
tudo o que existe; nada é passageiro.
Amor de veraneio é um devaneio,
nunca me entreguei senão por inteiro.
(Paulo Cruz)
Vermelho lá vai violeta,
e lava minha alma de poeta
em sua névoa de vida abundante.
Instante que alude à divina aliança,
mudando a desordem ordinária da vida.
Sinal de um tempo aceitável;
guardião de tesouros elementais,
de quimeras infantis,
da mítica morada das fadas
e da força infinita da magia.
Vivas cores desprezam o poder da morte
e marcam o céu de sutil imortalidade.
Um sol tímido e vacilante revela-se
e anuncia um dia de amores
puros como um arco-íris.
(Paulo Cruz)
terça-feira, maio 27, 2008
Ressaca do "13 de Maio"
Cantemos o dia da liberdade.
Dia que a princesa branca firmou
o decreto em favor da negritude.
Dia que a alegria contagiou
o canto triste dos filhos da África
e os livrou pela tocante atitude
da ilustre representante do império.
O raiar de um novo tempo chegou,
brilhando na atmosfera cinzenta
da Senzala. Ungiu o lamento, o banzo
do coração escravo já descrente,
e o fez, inocente, correr, achando
que seria o fim de seu sofrimento.
Tateou no escuro um futuro escuso,
vislumbrou um cenário visionário
e sonhou, quimérico, um sonho homérico.
Mas que grilhões são esses, essas marcas,
que ainda habitam seu corpo dorido?
Não era a liberdade uma conquista?
Seria o início de um futuro ilustre,
ou mero embuste a tal abolição?
Sim, fora engodado pelo destino,
e o desatino de tal decisão
o lançara sem nada mundo afora
e agora, nem a Senzala, que era
o pouco que lhe restava da África,
um alívio na vida tão sofrida,
lhe serviria agora de guarida.
Relegado às favelas e aos guetos,
sem emprego ou favores dos antigos
senhores, ficara a sós e à margem,
perpetuando a imagem de indolente
que o faria sofrer durante séculos.
A luta agora ocorre em campo aberto
e o mais novo oponente é o próprio espelho;
sem oportunidade bate às portas,
total desprezo enfrenta à sua frente
e a mente então sucumbe, fatigada.
Onde buscar amor, um novo canto,
que ecoe, rijo, de seus negros lábios?
Onde buscar socorro se aos encargos
severos de sua luta sempre corre?
Fazer do vão prazer esconderijo
e alimentar os tabus conformistas,
fazendo assim o jogo do racistas,
é dar poder aos que te querem fraco.
Se a um só labor unir sua alma
e à força dos irmãos buscar ajuda,
um novo despertar da consciência
será sua liberdade verdadeira.
De posse de auto-estima altaneira,
lavar a tez pesada de amargura,
louvar os ancestrais de forma pura,
olhar em derredor de modo atento,
deixando aberta a porta da cultura.
Dispor a mente a novas descobertas,
mantendo em bom caminho a atitude,
fazendo assim nascer um povo forte,
herdeiro de um legado construído
por sobre o sofrimento e destinado
a não ser esquecido após a morte.
(Paulo Cruz)
sexta-feira, abril 25, 2008
NOVOS RUMOS
À Luciana Melo
Não quero tristes despedidas,
nem suposições descabidas,
há um longo caminho a seguir.
Andar por onde velhos sonhos
já muito antes habitavam
e apostar alto no devir.
Lembrar os amores possíveis,
deitar na varanda da vida
e estar a pensar no partir
como um desejo satisfeito.
No peito a doce nostalgia
de um grande carinho a fluir.
Um ensejo de novos rumos
no raiar de um dia que surge.
Decidir é deixar-se ir.
(Paulo Cruz - 25/04/2008)
segunda-feira, abril 14, 2008
"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio." (Fernando Pessoa)
À beira do rio há um tempo
que não fica conosco,
segue esgueirando-se
pelas encostas dos montes,
velando pelos vales
que se intensificam
à medida que o mar se aproxima.
Acima de toda e qualquer pretensão
descabida, o rio, sob o tempo,
cumula de beleza os seres,
que em suas águas se deleitam;
deitam-se à sua beira e buscam guarida
nos amores possíveis da natureza.
À beira do rio só há uma certeza:
de que a mesma correnteza que leva
os amores ao mar,
traz a cada momento uma nova alegria,
que fortalece seu leito
em meio à intensidade das águas,
fortelecendo as raízes que moram à margem
de sua inocente magnificência.
(PC - 31/03/2008)
segunda-feira, abril 07, 2008
Enfim, o que há de belo
na monotonia dos dias,
senão os dias que se seguem,
incólumes como os deuses,
que do Olimpo ferem
com sua imortalidade
a fragilidade dos homens?
O que há de belo no frenesi
da noite, que guarda de nós
o melhor de nossos dias?
O que há de belo no sumo
sumário dos sonhos,
Na saga solitária e sombria
rumo à Alegria?
Há um desejo, um lampejo
de vida plena,
de felicidade na doce angústia
da saudade,
na dolência das horas,
que passam tão depressa
nos momentos fraternos.
Há um leve desespero
pela eternidade dos tempos,
na inesperada união das estradas;
por onde seguem, felizes para sempre...
como num conto de fadas.
(PC - 27/03/2008)
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
Diria eu do amor qualquer bobagem?
Não. Sei que o amor é nato dom perfeito,
que no peito que guarda a paz, proclama
as intenções de um bem que é tão modesto,
que o seu protesto de atenção é doce
a ponto de manter resignada
a alma do que sofre o amor perdido,
e pensa não servir para mais nada.
Há dor, não nego, mas há fé, há vida,
e havendo isso por perto, o desespero
não ganha dimensão não concedida,
de ter toda atenção que há no mundo.
O amor só faz algumas exigências:
conter o desejar desordenado,
amar sem concessão, limite ou medo,
colhendo com prudência o que semeia.
Fugir de sujeitar a alma alheia,
sentindo da saudade o traço terno,
que haja espaço à liberdade, ao sonho,
que enfim atingirá valor eterno.
(PC - 25/02/2008)
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Sou um debatedor profundo.
Prolixo,
fixo meus indícios de certeza
na mesa do empirismo;
e com dinamismo digo o que sinto;
até minto, mas não admito qualquer apelo
em servir de modelo a ninguém!
Mantenho distância dessa insistência
de uma verdade absoluta;
minha paixão resoluta pela contradição,
e a aparente inocência de minha incoerência,
são armas sagazes contra os loquazes,
um truque perfeito a que tenho direito.
Não sou simpático aos dogmáticos,
nem convicto aos vacilantes;
mudo a todo instante,
sem ajudar aos que desejam um lugar
onde a razão não seja refém de ninguém.
Sou um debatedor profundo.
E do fundo de meu abismo,
semeio, no seio de meu cinismo,
dúvidas disfarçadas de argumentos
àqueles que quiserem mostrar
a qualquer momento,
que o sofisma é o alimento
do homem sem convicções.
(PC - 12/02/2008)
terça-feira, janeiro 08, 2008
Pelo "Dia Mundial de Luta Contra a Aids"
Quem imaginaria até então:
que a vida toda era uma brisa fria,
e os sonhos certamente um mau presságio,
do estágio que atingimos num gemido?
Quem imaginaria até então:
que a calma era melhor que a correria
e a busca do prazer de modo ágil
seria sofrimento garantido?
Quem imaginaria até então:
que fosse a solidão fatal sangria
e o ser feliz fosse um feroz naufrágio
que não passava de tempo perdido?
Quem imaginaria até então:
que só o amor por fim acalmaria
o desespero de um futuro frágil
e os medos de um coração partido?
(PC - 29/11/2007)
sexta-feira, janeiro 04, 2008
Ainda ouço o som
da chuva no telhado.
O rosto talhado de existência,
a insistência da vida
nos poemas do pai,
na arte do ator,
na fotografia dos fatos.
Tudo que sei,
Andrei,
é que agora não sou mais o mesmo;
teus sonhos são os meus,
sou teu personagem perdido
no ocidente, num acidente do tempo,
uma imagem de tua criação,
canção que de tuas lentes
emana lentamente.
Sou amigo de teu sofrimento,
abrigo de tua arte,
afrontando as fronteiras do saber,
os encargos da dor
e os sabores amargos da solidão.
(PC - 12/12/2007)
quinta-feira, outubro 25, 2007
Minha meta é a metafísica.
teorizar os atributos é meu intuito;
um dilema, um lema indefinível
é o nível de minhas abstrações,
minha intuição é uma canção confusa,
meu artifício é um edifício difícil de erigir,
um alimento que não se pode ingerir
a qualquer momento;
tal pretensão pode ser letal.
Procuro provocar controvérsias
carregadas de alegorias e sofismas sofisticados;
deleito-me nas categorias filosóficas
e nos cismas lógicos.
Deixo Deus detido em meus teoremas,
depois, temendo que tudo esteja em aberto
o liberto tanto que já não é possível
saber o que é certo.
Meus argumentos parecem puros, etéreos,
mas são sólidos como um rochedo;
são armas estéreis contra o Eterno,
mas não admito, tenho medo.
(PC - 25/10/2007)
quinta-feira, julho 26, 2007
Era um sorriso inocente
Era uma pose engraçada
Era um pedaço de gente
Era alegria espalhada
Era o orgulhoso Narciso
Era a criança levada
Era o que dava o sorriso
Era o que cobrava nada
Era o que andava tão bem
Era o que hoje eu entendo
Era o mais sábio também
Era o que era não sendo
Era o que amava seus pais
Era da música amigo
Era o que dançava mais
Era da paz o abrigo
Era de Deus o retrato
Era dos seus companhia
Era criança de fato
Era o amor que vencia
Era assim, só alegria
Era sim, vida de brilho
Era o que falando ria
Era eu, hoje é meu filho
(PC - 05/04/2007)
terça-feira, julho 10, 2007
Ambas as pedras rolaram,
Eu e Sísifo corremos.
Não há entre nós ganhador,
nem perdedor haverá;
Eu e Sísifo
limitamo-nos a buscar de novo as rochas.
Abaixo, a montanha tão conhecida
se faz nova a cada investida
e tratamos de trazer aos tropeços,
cada um a sua pedra-castigo.
Não há orgulho entre nós,
somos companheiros de sonho e de sina;
Eu e Sísifo
enganamos a morte e agora,
eternamente condenados a carregar,
com malogro garantido,
o nosso destino,
tivemos uma idéia salutar,
que nos aliviará, talvez:
vamos juntos carregar
uma pedra de cada vez.
(PC - 05/07/2007)
terça-feira, junho 26, 2007
José da Silva acordava
todos os dias às cinco
Subia a lona do circo
Tirava o trailer da trava
Lavava bem o leão
levava pão bem quentinho
pra sua esposa e sozinho
buscava inspiração
Seu pensamento subia...
sabia que sua destreza
era mesmo na tristeza
trazer ao povo alegria
Seu pai legara-lhe o ofício
tendo depois falecido;
ser o que não tinha sido
foi seu maior sacrifício
À tarde no picadeiro
com sua cara pintada
o riso da garotada
o consolava inteiro
E depois, na madrugada,
Sonhava então ser feliz
seu coração aprendiz
dizia à alma apagada:
não foi bem isso que eu quis.
(PC - 22/05/2007)
terça-feira, junho 19, 2007
quarta-feira, abril 11, 2007
segunda-feira, abril 02, 2007
A despedida foi um tanto estranha.
Você se foi, saiu; seu cheiro não,
ficou, insistente. Não levantei.
Lamentei por um momento e depois
segui calmamente até o outro cômodo,
com um sentimento qualquer de incômodo,
e chorei uma saudade que nem
sequer se fazia presente. E então,
sem que minha mente tivesse tempo
de compreender o súbito ocorrido,
uma sensação de oco nasceu dentro
de mim; entrou sem pedir permissão,
introduzindo-se no mais profundo
e íntimo pedacinho de mim,
dilacerando-me completamente.
Como se eu tivesse escorrido, líquido,
por entre os dedos eternos de Deus
e caído.
(PC - 29/03/2006)
terça-feira, março 20, 2007
Quando te escondes de mim
é que melhor te conheço;
e quase te desconheço
quando brincando me brindas
com tua terrível ausência.
Te busco no firmamento
e nos luzeiros da noite;
nem nos profetas te vejo,
nem nos profundos ensejos
da mais moderna ciência
depara-me tua presença.
Ansioso espero encontrá-lo
no rosto amigo de outrora,
trocando a treva que agora
invade minha consciência.
Estou tão frio que não posso
sentir que me olham teus olhos;
tão ébrios andam meus pés,
que já não podem sequer
fazer qualquer exigência.
Olhando em mim não te encontro;
eis que no vazio me acho
diante de ti, e tão longe
perco meu passo e te vejo,
já não há mais resistência.
(PC - 20/03/2007)